Ana Rita Barros

Adaptação à creche – Um momento importante do desenvolvimento.

Desde que nasce, e à medida que se vai desenvolvendo e adquirindo novas competências, a criança vai criando autonomias. E, quase sem se aperceberem, também os pais vão criando esse espaço de autonomia. Vejamos. Quando nasce, a criança é totalmente dependente. Nenhuma criança sobrevive sem cuidados. Nos primeiros meses, pais e bebé começam a conhecer-se melhor. A criança vai adquirindo novas competências de comunicação que permitem aos cuidadores, atentarem aos pedidos e necessidades de forma mais rápida e intuitiva. Isto permite que a criança vá crescendo com sentimento de segurança, pois sente que os pais estão sempre presentes. Sente que é amada e respeitada. Este sentimento de segurança é fundamental para as aquisições seguintes. A criança vai precisando cada vez menos da ajuda do adulto, vai aprendendo a alcançar objetos, a comer sozinha, a expressar-se cada vez melhor, a dar os primeiros passinhos. E a intervenção dos adultos cuidadores será, gradualmente, menor. Uma criança segura é uma criança pronta a explorar o mundo. Sabe que pode avançar, porque sabe, também, que pode regressar à sua base de segurança sempre que necessitar. Os pais serão o seu porto seguro.

Caso se sintam confortáveis, a dada altura, os pais deixarão, por breves instantes, o seu bebé em casa dos avós, por exemplo. Isto é, haverá alturas em que os pais se afastam. E estes pequenos afastamentos vão sendo, também, gradualmente maiores. Pais e criança vão aumentando o seu sentimento de segurança e confiança. Estes momentos são pequenos marcos, mas muito importantes para o desenvolvimento. E, claro, preparam-nos para maiores afastamentos que, necessariamente, acontecerão. A entrada na escola será, então, porventura, a primeira grande experiência a este nível.

Sou psicóloga e sou, também, mãe de um menino de 13 meses que iniciou a adaptação à creche no início do mês de setembro.

É um período difícil, para eles e para nós, pais. Na verdade, muita coisa está implicada nesta nova fase. Há uma mudança de rotinas que tem implicações em toda a dinâmica familiar e há, igualmente, uma série de sentimentos novos, experienciados por miúdos e graúdos. E, a verdade, é que esta mescla de sentimentos começa muito antes do grande dia. É uma alegria enorme assistir e acompanhar estas novas fases de crescimento, desenvolvimento e autonomia. Mas acarreta, necessariamente, receios, acompanhados de infinitas perguntas. Afinal, nesta fase, ninguém conhece melhor os nossos filhos que nós próprios. Como o vão acalmar quando ele chorar? Que estratégias usarão se ele não quiser comer? Que atividades irão desenvolver?

É, por isso, muito importante que a escolha da escola seja uma decisão ponderada e informada por parte dos pais. É fundamental que nos sintamos seguros da nossa decisão pois será mais fácil chegarmos à palavra-chave deste período: a confiança.

Não nos podemos esquecer que as crianças são esponjas dos nossos estados de espírito. Se estamos seguros e confiantes, mais fácil será de lhes transmitir essa tranquilidade e isso refletir-se-á, certamente, nos seus comportamentos.

Então isto será o suficiente para que, nos primeiros dias, a criança não chore? Não.

O choro pode acontecer e corresponde a um comportamento adaptativo normal a uma situação como esta. É, também, sinal de que a criança tem uma relação de vinculação com os pais e reage, naturalmente, à sua saída. Tudo é novo, o espaço de brincadeira, o espaço de refeição, o espaço de descanso, as caras de quem cuida. Isto exige que a criança desenvolva estratégias de adaptação importantes, mas às quais reagirá, até se sentir segura, criando novos vínculos com os adultos da escola.

Por tudo isto, é natural que nos primeiros dias, os pais sintam algumas modificações de comportamento nos seus filhos. Poderá existir maior necessidade da criança usar a chucha ou mamar. Poderão existir mais birras, alterações no sono ou no apetite. Nós, os adultos, também experienciamos alterações de comportamento quando temos que lidar com o medo, a ansiedade e o receio que situações novas nos trazem. Mas, claro, temos outras ferramentas para lidar com o que é novo, pois já temos armazenadas muito mais experiências semelhantes. As crianças estão a adquirir essas ferramentas agora. Por isso, nesta fase, a compreensão, o colo, o mimo com confiança e tranquilidade, ajudarão a criança a regular-se e a encontrar a segurança necessária para enfrentar este novo desafio. Não se esqueça, a criança precisa de regressar à base, ao seu porto seguro, para recarregar as baterias do amor, da segurança e da confiança.

Mas então, o que podemos fazer para que esta transição decorra da forma mais suave possível? Existem alguns pontos que considero importante termos em conta.

1 – CONFIAR

Como já aqui referi, a confiança é a palavra-chave deste período. Quanto mais confiantes e seguros estivermos da escola que escolhemos para o nosso filho, mais fácil será de lhes transmitir esse sentimento de segurança e mais tranquilos ficaremos no momento em que os deixarmos.

2 – COMUNICAÇÃO ESCOLA -FAMÍLIA

Este segundo ponto é fundamental para manter o primeiro.

Por um lado, a escola deve procurar informar-se o melhor possível sobre a criança que irá receber. Rotinas, hábitos, competências, interesses, gostos. Não, não é bisbilhotice da escola. Quanto mais informação for reunida, melhor conhecerão a criança e mais fácil será lidar com o seu comportamento e trabalhar o seu potencial.

Por outro lado, os pais não devem temer fazer perguntas. Não existem perguntas inconvenientes. Têm dúvidas? Perguntem. Perguntem sempre. Não deixem a dúvida aumentar ansiedades e receios. A escola acolherá e responderá, certamente, a todas as vossas preocupações.

Ambos, escola e família, farão parte de uma equipa. Uma equipa cujo objetivo é manter o bem-estar físico e emocional da criança. Para isso, precisam de se unir e comunicar, sempre. 

3 – OS PRIMEIROS DIAS E MOMENTO DA DESPEDIDA

Como já referi, o choro é uma reação que a criança pode manifestar no primeiro ou primeiros dias de adaptação à creche, aquando da saída dos pais. É um comportamento adaptativo normal a uma situação como esta. A criança vai desenvolvendo a competência de perceber que, os pais não estão temporariamente, mas regressarão. Uma competência importante no desenvolvimento e na autonomia das nossas crianças, já que acontecerá muitas vezes durante o seu crescimento. Por tudo isto, a adaptação deve ser gradual, ou seja, a criança deve começar por permanecer na escola por breves períodos e ir aumentando progressivamente o tempo de permanência. Isto ajudará a criança a perceber que os pais regressam sempre para a ir buscar.

É importante que a criança assista à comunicação entre pais e educadora. Mostre que conhece aquela pessoa e que confia nela. Mostrando confiança, a criança mais facilmente se sentirá segura naquele espaço com aqueles novos adultos cuidadores.

Não prolongue demasiado a saída. Isto poderá dar a ideia errada à criança de que não está totalmente seguro e preparado para a deixar lá. Que não confia o suficiente e, portanto, hesita em deixá-la. Mesmo que a criança chore, dê-lhe um último abraço, diga-lhe que o vai buscar logo e que tem a certeza de que ela se vai divertir muito. Poderá fazer a diferença, para algumas crianças, levarem um objeto de casa (um boneco, por exemplo) que possa ajudar nesta transição.

É fundamental pedir feedback à escola sobre como correu o dia. A criança acalmou-se com facilidade? Chorou no momento da despedida e esteve bem-disposta todo o dia? Teve momentos do dia em que começava a chorar a perguntar pelos pais? A comunicação é crucial para a manutenção do bem-estar da criança. Caso o choro seja muito prolongado e se repita por vários dias consecutivos, poderá ser importante consultar o pediatra.

4 – O FIM DO DIA E O REENCONTRO

Há lá melhor coisa que sairmos de um dia de trabalho e irmos buscar os nossos filhos? É uma sensação maravilhosa poder revê-los, não é? Receba-o/a de braços abertos e com todo o amor. Transmita-lhe essa felicidade que sente e diga-lhe que sentiu saudades dele/a. Mostre interesse e entusiasmo em saber como foi o dia de escola. Faça perguntas. Pergunte o que de mais divertido fizeram. Observe com atenção os trabalhos expostos e comente com a criança.

No fundo, dê colo, mimo e demonstre interesse pela escola e pelas atividades desenvolvidas.

A adaptação à escola é uma fase. Um processo que deve ser levado com serenidade e confiança na certeza de que a criança fará, seguramente, a sua adaptação e passará a apreciar as atividades e as rotinas da escola e a interação com os adultos e outras crianças da mesma idade. Não tarda, será a primeira, de manhã, a querer arranjar-se para ir para a escola na expectativa de aproveitar plenamente todas as oportunidades de brincadeira e aprendizagem!


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